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12 de jul de 2012

Nas madrugadas desalegres de um Porto

Flagelos e poeira em cima da mesa.
As gotas de saliva ácida respingam em chuva
de uma boca sem dó nem piedade.
Onde a última gota de esperança é afogada.
Há cerveja, há vinho, há cachaça.
Me causa enjoo, nojo, asco.
Nos transformamos em dois jardins, distantes.
A frenesi desse ciclone interno,
me revira as entranhas,
emaranha o meu coração,
aletarga meu cérebro.

 Nasce uma formosa aurora para nós.
Mas nessa chimia falta alegria.
Tudo parece calmo lá fora, e aqui dentro?
Há cores e sorrisos, e aqui dentro?

Pra piorar, em vôos noturnos tentamos voar...
de asas cortadas, de canto rouco de tanto protestar.

Onde um noite é apenas uma noite e eu sou o resto.
Nesse canto de sorriso.
Nesse canto de bar.
Nesse canto de resto de quase nada.
Nesse canto de noite: ninguém mais canta.

Leandro Borges

8 de jul de 2012

7 de jul de 2012

Liberto e Liberto


Liberto e Liberto.
Ó, amor liberto, quão diferente és.
Melhor forma de amar: liberdade enfim.
O enclausuramento dos sentimentos dói.

O vôo livre, simples e lindo é.
Sem prisões, sem cobranças e sem doenças.
A intoxicação do amor é um sacrilégio.
Cego em não ver a própria doença.

O amar em liberdade é o caminho da paz.
Flutuar tranquilamente entre o ruído e a pressa.
Quero sempre essa paz, sempre feliz: em paz.
Gosto da naturalidade e sei que ela é boa.

Laços envolvem os corações e como balsamo.
Sem feridas, sem cortes, sem magoas; somente confiança.
Sempre em liberdade vai, os corações vermelhos flutuam
não há corrente entre eles.

Sem parasitas, sem sanguessugas,
sem doença entre eles, sem dependência mutua,
sem muletas sem dominações, sem jogo sujo, sem vampiros,
sem wendys nem mesmo peter-pans.

Como é feliz viver livre assim sempre vou.
Vou indo, crescendo muito, mais muito mais rápido.
A vida muda ao se tornar realmente livre.
E amor liberto é uma dádiva transbordante.
Felicidade me toma os lábios, de orelha a orelha.

Gosto do gosto os ventos.
Gosto do cheiro do pampa.
Gosto do pala nos meus ombros.
Gosto do corpo aquecido pelo mate.
Gosto do tribular dos meus cabelos ao vento.

Corrida ao vento, sigo nobre.
Pouso em terreno firme e justificado.
Face se torna branda e afável: limpa.
Descubro a criança nos interiores profundos.
Sempre sigo a sua direção, sabia simplicidade.

Contente, irreverência, ausência do ridículo.
Agora vôo sempre para o infinito.
Azas e vorazes no furacão.
A chama que me arde, astuto ó grande coração.

Brinco com o tempo, mas mesmo que se vá
não tenho medo, sempre vêm para o bem.
Tempo mano velho, tempo seu irmão.
Fortes vidas, fortes lições: clarão.

Leandro Borges

Vento e Fogo


É o vento soprando à cantar.
Um pano de mesa a tribular.
Rodopia as roupas no cordão.
Faz da calmaria bucólica: agitação.

Desfigura a face do pássaro estradeiro.
Sobe das flâmulas para acariciar o vento.
Corre o pampa como rastilho matreiro.
Fogo de luz inflama e corre contra o tempo.

Faz da pequena brasa um imenso fogarel
e da chama calma um incendiário cruel.
Para coração apaixonado: a loucura.

Vento: grande e ímpeto parindo a vendaval do novo.
Fogo: guerras e revoltas contra a tirania infame.
Para o amante alado a ardente doçura.

Leandro Borges

O pampa encantado

Encontrei nas matas, na selvageria, as flores de um outro lugar.
De um outro tempo.
Soube que era do outro lado do rio.
Eu vi cavalos correndo, gauderios quase voando.
Vi prendas e muitas guirlandas de flores.
Vi bandeiras vermelhas rasgadas, brasa nos olhos.
Sei que perto da fogueira escutei muitos causos.
O céu mais bonito que vi nesses últimos duzentos anos.
Era de outro lugar aquela prenda.
De poucas falas, de um jeito tímido de ser prenda.
Sua veste negra, parecia uma guria crescida de luto.
Mas não, eu via o brilho dos seus grandes olhos.
Cabelos tão lisos, tão longos e tão negros.
Um ar misterioso de se esconder em seus véus negros.
De poucas palavras e olhar profundo.
De sorriso de canto e de fala doce e serena.
Era de uma outra qualidade de prenda.
Dessas que não é sempre que vem até estes pagos.
Sentou ao meu lado e me olhou de canto de olho.
Senti a sua energia encher as minhas marés,
mesmo este velho marujo se espantou,
pois era um mar de outro lugar.

Sei domar cavalos e mares.
Sei cantar dores e flores.
Mas senti um arrepio na alma ao ver aquela prenda de pele mui branca.
Não encontrei no céu a lua.

Era o seus olhos gigantes, engolindo o meu horizonte.
Em seu olhar mergulhei.
Um olhar-luar derretendo ao mar.

No pampa sem tempo-espaço de um horizonte infinito,
eu vi deitada servindo a contemplação o corpo nu da lua.

Leandro Borges

5 de jul de 2012

Riscado pelo mundo


Me sinto um ser inútil, sem razão de existir.
Em um mundo avesso pro meu fazer, não sigo em acordo.
Cansado de não ser valorizado pelo trabalho árduo feito.
Sigo sem moedas, ou pior moedas emprestadas.
Sigo triste, sem imagem, sem dignidade, sem família e sem amigos.

Reprovado mais uma vez pelo caminho, sou um inútil que tenta provar para consigo que não.

Cansado de tantos sonhos amarelos, de tantos castelos desmoronados...


Subvalorizado, me sentindo menor.. passo por homens que dizem que irão ajudar.
Fico sozinho num canto, sem ajuda e sem valor.

Parte de minha alegria morre hoje, me sentindo um lixo.
São lixos multiplicados, estorvando o caminho da humanidade.
Um lixo sem reciclagem, sem finalidade... deixaram-me apodrecer até virar não-adubo.

Leandro Borges
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