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5 de jul. de 2012

Riscado pelo mundo


Me sinto um ser inútil, sem razão de existir.
Em um mundo avesso pro meu fazer, não sigo em acordo.
Cansado de não ser valorizado pelo trabalho árduo feito.
Sigo sem moedas, ou pior moedas emprestadas.
Sigo triste, sem imagem, sem dignidade, sem família e sem amigos.

Reprovado mais uma vez pelo caminho, sou um inútil que tenta provar para consigo que não.

Cansado de tantos sonhos amarelos, de tantos castelos desmoronados...


Subvalorizado, me sentindo menor.. passo por homens que dizem que irão ajudar.
Fico sozinho num canto, sem ajuda e sem valor.

Parte de minha alegria morre hoje, me sentindo um lixo.
São lixos multiplicados, estorvando o caminho da humanidade.
Um lixo sem reciclagem, sem finalidade... deixaram-me apodrecer até virar não-adubo.

Leandro Borges

17 de jun. de 2012

Sem Pena

Um mundo pingado de coisas.
Muitos pontos e muitas partes.
Muitas memórias em desassossego.

Meu peito bate quase feliz.

Eu olho pra tantos lados, pra tantos lugares.
São tantas realidades e tantos contrastes.

Meus olhos quase choram.

As ruas quase ruas.
As estrelas quase estrelas.
As casas quase casas.
As pessoas quase humanas.

Andam com tanta pressa e tantas rugas de mal dormir.
Andam com tanta fome de dinheiro e tanta falta de vida.

Se eu vejo a tristeza alheia, como posso passar alheio a tudo isso?

São rachaduras de um corpo.
São dormires de andar de pé.
São solas gastas de muitos quilômetros.
São fomes de comer frio e vazio.

O céu deveria ser azul.
A água deveria ser limpa.
A vida deveria ser feliz.
A arte deveria ser viva.
O dinheiro deveria não ser Deus.

Leandro Borges

13 de ago. de 2011

Piscina de Dor

E se o mundo me fosse obrigado a carregar?
Um peso de um mundo que os desumanos nos empurram goela a baixo.
Onde a dor se instala, onde o sorriso é apagado.
Vivemos em uma ditadura de burrocracias masoquistas.

Sofremos dores desnecessárias, como já não bastasse as dores naturais do mundo.
Os Psico-torturadores criaram um mega arsenal de dores artificiais.

Deixem os loucos, não serem loucos.

Deixem a vida ser maior, ser de verdade, ser humana.
Homens criaram maquinas de dor.
Processos de dor.
Caminhos de dor.
Labirintos de dor.

Deixem o amor em paz.
Deixem a vida livre.
Deixem a possibilidade de sonhar e os sonhadores vivos.

O mundo não se pode tornar uma caixa de tortura.
Os que não abrem os olhos para a dor alheia, sofrerão ainda muito.

Onde não se pode ser um, eu sou o respingo de tudo.
O mundo tão cinza, tão cimento, tão asfalto, tão concreto e nenhuma humanidade.

Espero que essa piscina de esgoto não me alague em dor, desespero e depressão.

Leandro Borges - 05/03/11

28 de jul. de 2010

São Pauleou


São Paulo me cansa, me desgasta, me atordoa, me letarga, me adormece, me olheira, me tira o tempo, me tira o sorriso, me deixa liso, triste, enfadonho.

São Paulo me dá quilômetros para percorrer e me canso, mas não pra dizer.


Tira o meu estado SOLAR.


São Paulo são-pauleia-me:

Nubla-me;
Entrenubla-me;
Nuvea-me;
Anuvia-me;
Brea-me;
Turva-me;
Escureça-me;
Acinzenta-me;
Esqualida-me;
Descora-me;
Empalida-me;
Soterra-me;
Desajusta-me;
Desfoca-me;
Desestrutura-me;
Deprima-me;
Oprima-me;
Engula-me;
Maltrata-me;
Açoita-me;
Fira-me;
Humilha-me;
Exclua-me;
Bana-me;
Deleta-me;
Desapareça-me.

Ajuda a mostrar o meu lado mais avesso.
Vejo o Brasil aqui, e é um Brasil feio.
Ando por ruas quebradas, por sorrisos amarelos.
Pessoas cansadas, soterradas de trabalho.
Pessoas caladas, soterradas de tristeza.
Pessoas frias, soterradas de depressão.
Paro na esquina e vejo intolerância, ignorância e desesperança.

São Paulo é como toda cidade Brasileira, porém elevada ao quadrado.
Aos retângulos do teu corte aéreo, das linhas da tua silhueta.
Linhas retas e pessoas tortas.

Alguma coisa acontece no meu pulmão.
Que só quando cruza a Augusta e Av. Paulista.

Não te vejo imensa, te vejo pequena.
Concretista, concretíssima... poesia dura e feia.

Soberba do dinheiro... não me seduz.

Um braço forte... e um coração petrificado.


Em certos dias, vejo a tua garoa como pequenas lágrimas de São Paulo.

Leandro Borges

21 de mai. de 2010

O seco deserto das ilusões

O óbvio cega os meus olhos
só consigo ver aquilo que não é
uma estrada que vira um nada

o poço do fundo dos olhos
secos
como seco deserto das ilusões

Leandro Borges - 10/04/09
q coisa essa vida
uma certa noite
se entra num bar
sem se esperar nada
e sem nada querer
exceto uma ceva
e quando se ve
se depara com aquilo q é algo de tão sublime
um simples e nitido olhar
e nada já mais é a mesma coisa
nem o mesmo bar de tantas cevas
parece q tudo toma outra forma e significado
e no mesmo instante nasce uma contemplação e um misterio
e é como um mel, q se bebe e se bebe e se bebe muito
e ninguem te dira de quanto desse mel pode beber
e de mergulha nesse mel
e é tão doce q o puro doce invade
e me deixa em primeiro instante sereno
mas é como a lua
a cada fase, me mostra um outro lado, personalidade
e daquela primeira q conheci, volto a lembrar
e do mesmo bar
aquele mesmo que só estava procurando uma ceva
mas o q se pode fazer quando o fogo de uma paixão nasce?
simplesmente apaga-lo e nada?
eu de fogo, quero q de fogo me queime, e que as labaredas crescam o maximo q puderem
quero o mel
o fogo
a lua
a primavera...
a ceva...
mas se de um turbilhão passar, ela eu machucar, e ela me olhar com outro olhar
q eu posso fazer?
é eu sei
eu tenho
mas nem sei quando
não queria q fosse por agora
pq então ela me largaria talvez
isso tb me ajuda a pirar
a endoidecer!
uma paixão vale pela insanidade e dor?

Leandro Borges - 03/12/09

25 de jun. de 2008

Bato, corro e grito!


Vivemos num tempo que pra muitos de não-amor.
Ao trabalho, nas relações pessoais.
Falta de amizade, confiança.
Falta de carinho.
Falta de real casamento.

Nada mais faz sentido em um mundo de bolhas.
Perco o meu infinito.
Bato.
Corro.
Grito!

Respiro calado.
Fluxo trancado.
Ando em oito.
Volto ao fluxo curvilíneo.
Para voltar.
Acalmar.
Leve.

Aquietar o coração.
Regalo de amor.
Do amor, o amor nasce.
Montes e vales.
Rios e mares.
Reluzem em cor.
Transbordam amor.

Leandro Borges

23 de jun. de 2008

Bolhas Mulheres


Estouram pelo ar, mulheres ao luar.
Sobra apenas a lembrança das sombras delas.
Lembro das sombras num momento passado.
Ainda escuto o estouro de cada bolha.

Vejo em morte de películas de sabão.
O brilho que reluz furta-cor.
Arco-íris há ao fundo, explosão.
Acaba a cada, um mundo, dor e terror.
Pequeninas partículas de morte-ilusão.

Vejo uma enorme nuvem de bolhas.
Explodem.
Bolhas.
Explodem.
Mulheres.
Explodem.
Bolhas.
Explodem
Mulheres.
Explodem, uma a uma, explodem!

Muitas mortas...

Leandro Borges

O outro que fui


Irremediável amargo passado que vejo.
Penso e padeço.
Uma maça verde, não madura, sem caramelo, sem consciência, sem experiência e sem noção.
Hoje chora meu coração aflito, sem a tua voz, sem o teu olhar, sem o teu zelo, sem o teu carinho, sem a nossa alegria.
Para lembrar de ti eu planto flores, mas nunca nasceu uma rosa no canteiro.
Tão sublime como aquela que regaste e cultivaste na minha alma, no canteiro do meu coração.
Quando morreu a mingua a rosa na tua ausência, nunca mais fui o mesmo.
Hoje sou outra pessoa para que a culpa morra com o outro que fui.

Leandro Borges

Despertar


Desfiladeiro profundo, escuro de cor.
Vozes, vapor, falta de amor,
pouco suor, águas desconhecidas.
Fogo tremendo, peito apertado,
olhar calado, sentimento ilhado.
Te ver foi distante, em preso instante,
vi tua face, tua face não vi.
Vi tua face distante e tão perto.
Não compreendo como em um dia, estrelas.
Outro dia todas estão mortas.
Ou mortas ou adormecidas.
Cuido de minhas feridas,
pois sem ti o fogo não arde.
A água não molha, a terra não fértil,
o ar sem oxigênio, sem vida.
Sei que não por acaso apareceu,
meu mundo e o teu se cruzaram.
Olho todos os dias ao céu
e espero, aguardo o despertar.

Leandro Borges

25 de mai. de 2008

Dor sem cor


Um aperto de todos ossos fazem um corpo oprimido.
Uma dor sem cor invade, sem rédeas.
Sangra por muito tempo.
Se torna alimento para o sono ruidoso.
Um oco da falta da cor e melodia da alma.

Leandro Borges

29 de jan. de 2008

Última Supernova


Como cálice de vinho tinto parado
estou a descansar o meu fluído.
Deixo toda agitação guardada enfim.
Assim, no fundo de minha alma assegurada.
Deixo os cantos dos pássaros falarem por mim.
Olho o vento curvar o som dos eucaliptos.
Uma ponta de folha me toca a face escondida.
Uma ponta de melancolia me toca a memória.
Como me fascinava a constelação dos teus olhos.
Nascia sempre um céu quando os nossos olhares se cruzavam.
Me abalava a memória nas noites frias e cruas.
A infância com sabor de morte e tristeza.
A aspereza de tantos anos de solidão fulminante.
Deixo a explosão dos lobos guaras correrem por mim.
Uma alegria ferida sangra, marcando os teus passos agora lentos.
Uma pequena casa a embalar meus sonhos ternos infantis.
Anjos grís me levam pela mão ao teu tenro jardim.
Nele vejo um mel suave, a luz do sol deixa toda a natureza
com uma cor castanha amarelada, traz o encanto
nessa tarde de sol que já não é tão avermelhada.
Deixo o suor coroar toda a minha fadiga urbana.
Deixo o sol revelar toda a cor da minha pele nativa.
Me transformo em metal bronze, choro lágrimas azuis.
Sofro calado com um sorriso radiante no rosto.
Em pequenas curvas suaves do meu sorriso deixo escapar.
Desvio o olhar do teu mirar fulminante que me sufoca.
Ruo um urro de alegria já acinzentada pelos anos.
E nesse ruir e nesse urro há algo de muito impuro.
As folhas comidas pelas traças famintas do desespero.
O teu perfume exala insegurança e egocentrismo.
No teu riso escrachado eu vejo um menino desesperado.
Há um sinísmo totalmente cruel e uma falta de fé absurda.
Não há mais pão, não há mais prazer.
Sente só o soltar eterno das mãos dadas.
A última estrela do teu olhar deitar eternamente.
Supernova desenha um belo requiem orquestral.

Leandro Borges

27 de nov. de 2007

Saudade esquisita


Hoje me bateu uma saudade esquisita
daquela guria-mulher, maldita-bendita,
de volúpia virtuosa e de tamanho infinita.

Talvez nunca mais :
me arranhe como ela me arranhou,
me morda como ela me mordeu,
e me peça como ela pediu,
me tire sangue como ela me tirou,
me lamba como ela me fez,
e como ela pediu pra fazer.

Ó tristeza bonita que só ela guarda.
Uma melancolia passiva, quase congelada.
O coração e boca: agarrada.

Leandro Borges

24 de nov. de 2007

Fogo


Passa um doloroso furacão e agora o que sobra são as sobras de uma vida fria e um estômago totalmente embrulhado, esmagado e dolorido. É vermelho. Sinto uma tristeza absurda de profunda e constante, uma tristeza de meter medo e desespero.

Tenho vontade de chorar mas por fraqueza seguro no fundo do peito todo o sentimento agora contido. Há um choque dentro de mim, algo que faz doer, traumatizar todas as células, cada centímetro de mim, e assim a cada segundo me deixa mais frágil ainda.

Não sei em quem eu posso crer. Tudo me parece turvo, muitas vezes me parece que sãos apenas jogos e manipulações de todas as partes. O fogo segue. Cansado de tantas feridas eu sigo coxo, andando com dificuldades, me apoiando aonde não deveria. Ao olhar pra trás vejo o rastro de sangue que meu coração ao passar por tais caminhos vai colorindo com seu lindo tom de vermelho escuro.

Apenas o sol não me parece hostil nesses tempos de frio em plena primavera.
As flores me mostram um colorido que só pode ser real pra elas, a vida
que nos é imposta é em tons de cinza. Só sobram elas.

Mais uma estrela se apaga dentro de mim, um espetáculo de morte mui belo. Uma supernova feita em réquiem sonolento. O céu já não tem a mesma cor. As flores já não tem o mesmo brilho. Apenas o fogo me parece brilhar.

Leandro Borges

18 de nov. de 2007

meus tempos, ou não só meus


muitas coisas deflagram estes nossos tempos atuais
um tempo que é marcado pelo não saber de rumos
não saber de objetivo, não saber de valores, sem credo, sem ideologia
sem filosofia, sem religião, sem laços firmes, sem família, sem ordem,
sem um mínimo de direção, sem respeito, sem ética, somente o dinheiro vale

onde o ateísmo eh a tendência para muitos que conheço
onde uma família não significa absolutamente nada
onde ter um filho é banal, como comprar um briquedo de carne

onde o amor é algo teórico
há apenas carnes chamam e mandam embora
um lugar aonde o amor fica na ficção e nos sonhos

a realidade sempre nos acaba
mostra o quão raso são as nossas vidas

...

quando tento pertencer ao padrão padeco
quando saio do padrão me sinto uma exeção
não consigo sentir a verdade
vejo apenas a solidão, ando a beira
a beira da vida
a beira do atlântico
outra vez acontece, o que fica obscuro de verdade

teus olhos realmente me fizeram mergulhar neles,
perdido estou dentro de ti

falou o que eu queria ouvir
pena viver tão longe

não sei se posso confiar em ustede

é estranho, o desconhecido se torna o vilão
um devaneio ou mais uma decepção causada por outrém

me da de presente
mesmo que quase impossível
é o que eu mais quero na vida
mas depois se mostra imatura...

é um descaso
ou um abuso

o caso é que me cansa a vida
acende a chama ou me engana

prefiro deixar meu coração adormecido
a ser iflamado e ferido

uma vida de desencontros

um tempo que as pessoas não se encontram mais nas ruas
não conversam mais nas ruas
um tempo que não conhecemos os vizinhos
que as relações entre as pessoas são baseadas em lugares fechados
fechando muitas possibilidades
uma vida menor
causada pelo medo
as ruas ficam vazias
não ha mais uma grande roda de amigos

uma dificuldade de conhecer pessoas novas
ou se conhece estudando, trabalhando
ou em uma noite de ilusões

cansado de uma vida de um tempo que nos poda e nos esteriliza

a única saida que vejo é viajar
mas ao viajar encontro a distância

olho para fora dos teus olhos e não consigo sair daqui
estou aprisionado e sem esperanças

triste estou, fruto do rolar dos dados

uma vida pequena e fria
uma fagulha de sol do céu pode me salvar

espero que a espera valha

Leandro Borges

27 de out. de 2007

Ainda vem


A não hipocrisia fere.
Te deixa total exposto
em carne, osso e pele.

Eu sentia que algo fluía entre os olhos dela e o meu pensamento, era algo insólito.
A barreira dos nossos corpos, rompidas e corrompidas em um ato voraz e atroz.
Era um flutuar de pensamentos, soltos, brincando com as memórias, as nossas comum histórias de vida, sonho e paixão. Era como uma bolha rompida, uma fala ferida pelo constante intervir de insólitas pessoas. A nossa alegria incomodava, ninguém suportava a glória alheia, eram como canibais frustrados e malogrados.

Eu tinha presente em verdade, toda a suavidade na fala e isso, mais do que a própria fala e meus argumentos, agredia asperamente o ego, sisava em carne viva.
Seres acrónicos perseguiam a minha alma radiante, era um universo deles tão distante que não entendiam de onde nascia: tanta felicidade e irradiação interior.

Cantava em seus cabelos, pele e mão as mais verdadeiras melodias de amor, não era piegas falar disso, era permitido. Até que veio sentimento a esterilizar toda poesia que carregava dentro de mim. Esqueci por anos. Até que um beijo mui lento, com efeito como um desfibrilador de almas, partir da pureza virgem emergi das cinzas.

Eu canto aos ventos, liberto os tentos, faço da cantiga antiga a antígua entre os nossos corpos. Como estrelas, mastigo o teu mel, torno o teu fel em flor. Assimilo o teu desprezo, regurgito a tua proposta, vejo o peso do teu desejo, nego o teu calor e escuto imenso fragor do teu coração em deserto.

Suicidas labaredas saem das tuas entranhas, falas enfadonhas! Cansam a minha beleza interior, que se transmuta para terror ao ser embriagada pela tua magoa. Soterrado e sozinho em um mundo sem amor, viajo. Cansado de nadar pela correnteza que insiste em jogar água contra mim. Assim com tanta falta de ver nas pequenas coisas a beleza enorme que existe, toda a minha terra se torna infértil.

Um beijo pode me tornar vivo novamente. (Deus observa)
Espero que o bonde ainda passe.

Leandro Borges

7 de out. de 2007

Um bonde


Um bonde pra toda a vida.
Um bonde que não vem.
Um bonde que não tem.
Um bonde que perdi ou que se perdeu...

Leandro Borges

Um dia


Não vem.
Vem ilusão.
Não vou.
Vôo: solidão.

Leandro Borges

3 de out. de 2007

Brinquedos quebrados


Não sei se por contra ponto
mas quando sai da lama dei um salto.
Saltei tão alto que andava nas nuvens.
Eu simplesmente via o que não existia.
Vi uma doçura aonde não tinha.
Vi alegria aonde não havia.
Vi leveza aonde tinha aspereza.

Preferi pintar um quadro ao invés
de por os pés na terra.
Por mais um vez cair na lama,
dessa vez com menos dor.
Mas apavorado não por ninguém.
Mas por mim, meu próprio inimigo.
Com olhos de fantasia vi a vida.
Não existia, talvez por isso tantos poemas.

Aprendi a reconhecer os meus erros na primeira vez
ser mais leve, ter sensibilidade, tato, mais responsável.
Aprendi que muitas vezes eu sou meu maior inimigo
e estou ainda tentando a aprender a não me sabotar.
A olhar a vida com os pés no chão, com o coração calado.

Me pergunto qual será o próximo desafio.
Eu vi a depressão de face nua.
Era uma mulher mui bela, oca e com solo devorador.
Vi a depressão em outrem e tentei salvá-la do abismo
mas não há como mudar as outras pessoas se elas não deixam.

Vivo em crises de trabalho e de amares. (ou pior não amares)
Esses que não fecham, desencontros desmarcados.
Sentimento de querer viajar.
Devo estar querendo fugir dos meus problemas?
Do meu mundo?
Dos meus medos?

Outro dia li que: "O amor vence o medo."
Cheguei a simples conclusão que
se ando com tanto medo de tantas coisas diversas...
Deve estar faltando muito amor na minha vida.

Simplesmente a vida é assim.
Não culpo a ninguém nem a mim.
Tento não confundir sexo com amor.
Tento não magoar ninguém.
Tento não banalizar a vida.
Tento dar um jeito no meu jardim.
Agora a borboleta que eu vejo lá fora
simplesmente não pousa nas flores que tenho.

É como uma criança que não tem o brinquedo que quer.
Anda a brincar com os brinquedos que aparecem.
E com sua simples brincadeira, acaba por quebrar.
Com culpas e também sem felicidade.
Gostaria de não precisar destes brinquedos
(que não são meus)
mas a necessidade por diversão fala mais alto.

E outra, é estranho, parece que renasci.
Ou melhor, que nasci outra vez dentro de mim.
Ou que outra pessoa emergiu dentro de mim.
Como ao acionar um botão, algo foi o estopim.

Todo o legado de um ser que recebe de seus outros corpos
a sua vivência já adquirida em passado antes destes.
Não necessariamente outra vida.
Não me vejo trabalhando 40 anos com a bunda sentada
na frente de uma tela ridícula.

Hoje sei que a vida é mais do que isso
e espero que meu futuro não seja negro assim.

Leandro Borges

4 de set. de 2007

Areia


é como um barco em meio a areia
eu remo no meio do deserto
sonho com um oceano grandioso
só vejo uma imensidão branca

espero por um vento que me transporte
tire a areia dos meus sonhos
que deixe-me voar entre as ondas

é como sonhar um não alcançar
é como deglutir pitangas e almejar salmão
é um choro seco, um choro deserto
é uma mente fervendo no zero absoluto

se o palco fica acima dos meus pés
eu faço força pra subir
mas caio e fico só no avesso das coxias
tento manter falas o os ponteiros
velhos ponteiros do relógio velho
matam a minha criação, trazem o branco

olhos que sugam minha energia
empurram na parede
atiram as pedras
perguntas de insensibilidade
ignoram a minha situação

bate
fura

coadjuvante do coadjuvante
sem mecenas
não há saída
eu juro que tentei
se só me sobram sobras de dias
com as sobras hei de ficar

posso roer objetos cênicos
lamber o teu sapato no palco
posso só olhar
meu tempo é sem tempo

sem tempo para o teatro
há muitas portas abertas
mas há correntes nos meus pés
o tempo gasto para sustentar o tempo
para prover o sobreviver ao invés do viver

o não conciliar de profissões
urrando, abomino a minha condição

caminho entre minhas revoltas
corto meus pés nos mesmos lugares

conversei outro dia com a solidão
me contou dos desencontros e desencantos

atiro-me em um abismo oceânico de sangue
escuridão

projétil
veloz
fura
escuro
fura
mente

sangra meu sonho
explode o crânio
faz o clarão nuclear
fura o teto do mundo
eis que morre: o escuro!
escorre pelas minhas paredes
a luz radiotiva do céu
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