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8 de mai. de 2026

Ode ao Homem que o Sistema não Conseguiu Comprar


Eu te conheço, irmão.

Conheço tua assinatura no papel

que nunca foi teu,

conheço o número de registro

que o mercado tatuou no teu pulso

antes mesmo de te perguntar o nome.

Vinte anos depositando

na conta de outro homem

o suor que saiu do teu próprio fígado,

da tua própria nuca inclinada,

dos teus próprios dentes cerrados

nas madrugadas em que a máquina

exigiu mais do que o teu corpo tinha

e você deu assim mesmo.

Porque é assim que funciona, companheiro.

É assim que a engrenagem foi desenhada —

para que o teu esforço

construa o patrimônio de quem

já tinha patrimônio antes de nascer.

Mas havia algo que o contrato não previu.

Havia um homem dentro do contrato

que não cabia nas cláusulas,

que estourou em silêncio quando devia estourar,

que virou a mesa quando a mesa

era a única linguagem que restava,

que desceu ao fundo do próprio ruído

e não se afogou —

aprendeu a respirar lá embaixo.

O sistema chama isso de instabilidade.

Eu chamo de recusa.

E hoje, neste dia de maio ordinário,

enquanto os mercados abrem e fecham

indiferentes como sempre foram,

um homem atravessa um pátio

com suas coisas nas mãos

em direção a uma porta

que tem a sua chave.

Não a chave do zelador.

Não a chave do proprietário.

Não a chave provisória do inquilino bem-comportado.

A tua chave, irmão.

Forjada em vinte anos de fogo

que o documento de compra e venda

não tem vocabulário para descrever. 🏆

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