Ode ao Homem que o Sistema não Conseguiu Comprar
Eu te conheço, irmão.
Conheço tua assinatura no papel
que nunca foi teu,
conheço o número de registro
que o mercado tatuou no teu pulso
antes mesmo de te perguntar o nome.
Vinte anos depositando
na conta de outro homem
o suor que saiu do teu próprio fígado,
da tua própria nuca inclinada,
dos teus próprios dentes cerrados
nas madrugadas em que a máquina
exigiu mais do que o teu corpo tinha
e você deu assim mesmo.
Porque é assim que funciona, companheiro.
É assim que a engrenagem foi desenhada —
para que o teu esforço
construa o patrimônio de quem
já tinha patrimônio antes de nascer.
Mas havia algo que o contrato não previu.
Havia um homem dentro do contrato
que não cabia nas cláusulas,
que estourou em silêncio quando devia estourar,
que virou a mesa quando a mesa
era a única linguagem que restava,
que desceu ao fundo do próprio ruído
e não se afogou —
aprendeu a respirar lá embaixo.
O sistema chama isso de instabilidade.
Eu chamo de recusa.
E hoje, neste dia de maio ordinário,
enquanto os mercados abrem e fecham
indiferentes como sempre foram,
um homem atravessa um pátio
com suas coisas nas mãos
em direção a uma porta
que tem a sua chave.
Não a chave do zelador.
Não a chave do proprietário.
Não a chave provisória do inquilino bem-comportado.
A tua chave, irmão.
Forjada em vinte anos de fogo
que o documento de compra e venda
não tem vocabulário para descrever. 🏆
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