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Semente do Coração: Quando se tem um fluxo contido por muitos anos por explodir, foi assim que esse texto saiu de um fôlego só. É impressionante como eu entrei num fluxo de escrita que nunca tinha me ocorrido, foi muito intenso e algo estranho. Quando acabei não tinha acreditado, como que possuído pela caneta e mente que fervilhavam. Não pretendo eu aqui me enaltecer, mas sim abrir um canal para eu colocar aquilo que sinto e penso ao escrever. Eu tento tecer em imagens tudo aquilo que estava aqui dentro me implodindo, certas pessoas são insensíveis a essas palavras, eu já sofri ataques e incompreenções levianas; eu espero que você siga por um caminho mais bonito e tranquilo. Transformar os pesadelos em paixão não é fácil.
 


Semente do Coração

Sabe, eu tenho fome das inquietações do mundo. Tenho vontade de engolir todas
as grande obras de arte da humanidade, quero que ao termino não sinta falta
de nenhuma parte, nenhum fragmento obscuro. Quem se alimenta de migalhas,
com o tempo passa a ser aquilo que come. Eu sinceramente não tenho vocação
para viver como resto de alguém, não eu querida. Eu sempre busco tudo por
inteiro, pois esse mundo fragmentado é igual ao teu coração, quebrado em mil
ilhas.
Não, não é verdade. Quando te conheci ele não estava assim. Sim é certo que havia
água formando poças de solidão, mas a ponto de criar ilhas... definitivamente não.
Não me pergunte como. Provavelmente não percebeste que a cada novo balde de água,
a cada dia, ia inundando tudo aos poucos. É óbvio que tu não poderia continuar leve,
e equilibrada com tanta água invadindo esse mundo e encharcando a tua alma.
Eu cravejei milhares de morangos em um vasto campo, lembra? Dava pra ver um mar de
morangos a perder de vista.
Realmente desejava que fosse o último lugar de nossas vidas, aquilo que
faria brilhar os nossos olhos sempre, como a primeira vez. Ah... como me era
caro, como era raro aqueles campos.

Falta de zelo? Carinho? Vontade?

O desprezo que nasceu devagarinho do teu coração, cresceu as raízes dentro
dele, brotou, saltou da tua pele como um parasita, uma trepadeira, sugou a
tua energia, continuou, como extensão do teu corpo invadiu o mais lindo
campo de intermináveis morangos. Como eram vistosos, vermelhos, suculentos
e saborosos.
Os tentáculos desta horrorosa planta que brotou dentro do teu coração, inva-
diram e contaminaram o nosso campo, por fim; um a um, todos os morangos esta-
vam com a tua semente negra. Eu não tive opção de reação, era tarde demais,
como um degrade de cor igual ao sol se pondo, vi o nosso lindo mar rubro se
tornar um imenso campo de morangos mofados.
É, tens razão, pode até ser; mas prefiro a ter que viver num inferno, sacri-
ficar na própria carne, por uma ideia fixa viver nesse pesadelo sem fim.
Sabe quantas cores existem no arco-íris?
...
Não, resposta errada!
Bom na verdade tens certa razão, pois só vemos o mundo que deixamos ver e
conceber. Eu vejo milhares de cores, onde vês lacunas entre cores, vejo mais
cores e essa explosão de cores é que me faz mover. Não que não seja bonito
esse imenso arco-íris em preto e branco que vês no espelho, mas ver o mundo
com cores apagadas não é pra mim.
Deus sabe o quanto eu queria ter os campos de morangos pra sempre. Mas tu con-
taminou com mofo. Neste teu bonito filme em P&B com lindo réquim ao fundo.
Aprendeste a transformar uma vasta terra em uma porção de ilhas, esse arqui-
pélogo de solidão. Não bastou o mofo, teve a petulância de inundar aqueles
campos que já não são mais teus...
Foi tanta água, que água demais não fez bem, isolando de tudo e de todos.
Quantas vezes eu te disse que muita água mata qualquer coisa... um exagero
de água fez imergir tudo, isolar cada coisa fora do seu lugar original.
Não, não, não. Eu te juro! - eu gosto de água, eu também te juro que eu não
fiz por mal, chegou uma hora que não conseguia ver tanta água, o fogo foi a
única saída que encontrei pra tentar anular essa solidão. O fogo sempre foi
a minha raiz mestra, no fundo do meu coração, ele alimentou e nutriu sempre
a nossa relação. Em fuga eu me deixei levar pela escuridão, tentava encontrar
a saída em um lugar isolado e escuro. Aos poucos, comecei a dar muito
pouca importância as cores, aquela imensidão que sempre via no arco-íris dos
teus olhos. Quando me dei conta era quase tarde demais, eu confesso, estava
tomado por monstruosos espectros de mim mesmo, minhas sombras abissais.
A cada novo acordar era sempre noite. Uma noite seguida de outra...
Fechei todas as portas e todas as janelas, não queria mais as luzes na minha
vida, sem mais tanta vibração, tanta vida e tanta cor...
Vivi por muito tempo na escuridão, quando dei por mim estava ao fundo do poço,
sem emoção e muito pouco me restava de vida, então repensei sobre as cores.
A minha saída desesperada foi o fogo, o fogo daria aos meus olhos o retorno
da cor, e assim foi, fiquei fascinado, mas era pouco. Queria mais, a luz do
fogo nunca era o bastante, e queria mais e mais fogo, assim mais luz e cores.
Essa busca cega me fez ascender milhares de tochas para ver os teus campos de
rosas vermelhas. Sim, para minha surpresa haviam ainda um lugar teu escondido,
algo que só poderia conhecer depois da escuridão. Como era belo aqueles vastos
campos de rosas vermelhas que cintilavam ao ondular do tempo e espaço.
Com o tempo o meu fogo se tornou incontrolável, mas eu realmente não
via o fogo... eu via as cores, as tochas, as labaredas sem fim. Quando dei por
mim, tinha transformado o teu lindo campo rubro em um imenso campo de rosas
vermelhas em chamas, pra sempre.
Ateei fogo naquilo que mais me era caro, que mais me era raro. Se algum dia
esse fogo acabasse, o que sobraria seria apenas as hastes nos campos de flo-
res, em uma imensa montanha; como um amontoado de pregos. Ateei fogo em um
campo de rosas vermelhas e não pergunte-me como... nem eu mesmo sei.
Foi um tempo muito sofrido e muito confuso, percebo que já não sou mais o
mesmo, também sei que novos caminhos irão brotar em nossas vidas.
Não, não me peça pra mudar quem eu sou e não me peça pra esquecer tudo que
aconteceu. Eu tentei por mais de dois anos isso, e sabe? Foi a pior coisa que
eu já fiz em toda a minha vida. Eu sofria a dor no peito por cada relâmpago
de lembrança, então me condenava mais, a cada lembrança, mais uma passagem
de nossas vidas trazia a tona, jogava mais e mais terra e tentava soterrar
todos esses nossos momentos inesquecíveis.
Fui traído por esta terra, essa mesma que eu criei pra soterrar a memória, o
tiro saiu pela culatra, quando tive a consciência da situação eu estava com
o peito soterrado totalmente e como essa terra me pesava e me oprimia.
Eu buscava a paz ao tentar esse movimento, mas além de não ter a paz quista,
tive sim muito mais tormento e também colhi o fruto da dor da ansiedade,
nessa terra podre nasceu um enorme dragão dourado psicosomatizado.
Foi quando então perceber dentro de mim está criatura dentro de mim, tive
muitas vozes dentro da minha cabeça e milhares de questionamentos sobre os
rumos da minha vida.
Vi a face da morte de perto.
Vi a face da dor desesperadora de perto
Vi a face da depressão de perto.
Um certo dia depois de muito lutar e me escutar, eu percebi que eu poderia
domar este dragão e usa-lo ao meu favor, desfazer seu ninho de terra podre
do meio de meu peito e voar distante para um novo mundo, onde tudo pode
recomeçar e encontrar um lugar mais feliz, um novo mundo.
Baby, eu te peço uma coisa, me ouve.
Tá me ouvindo?
Poderias parar de me pedir essas coisas absurdas? Poderias sentir?
Quem sabe tu não podes me propor um novo caminho, aceitar o passado, seguir
em frente, abrir os olhos para as cores, conciliar as rosas vermelhas e os
morangos, encontrar equilíbrio entre o fogo e a água. Deixar a luz entrar
na casa das nossas vidas, deixar que o dia seja dia, contemplar o recomeçar
de cada novo dia e que cada raio de sol entre e nos ilumine.
Vamos a cada dia plantar na terra saudável dos nossos corações não
mais sementes de destruição e sim, plantar duas rosas siamesas douradas,
uma no teu e outra no meu coração.

Leandro Borges



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